Dear White People_Cara Gente Branca

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Hoje vamos falar de uma série que já está dando o que falar. Alguns são contra, outros não. Eu faço parte do grupo que está adorando a série. E sou hiper a favor de que assuntos raciais sejam discutidos.

É um tipo de assunto que mexe na ferida, sabe?

Dear Withe People_Cara Gente Branca.”  É uma série da Netflix que acabou de ser lançada no Brasil.

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Bem, vou adorar falar sobre esta série porque primeiro – me identifiquei 100% e a série vale a pena ser vista, segundo -o racismo existe e no Brasil é gritante, e terceiro – temos sim que falar sobre isso. Não podemos deixar um assunto tão importante ser varrido para baixo do tapete.

A série aborda um assunto delicado de uma forma bem humorada, a trama gira em torno de um grupo de jovens negros ativistas, que destacam como tema inicial o fim do blackface, que até então, para muitas pessoas brancas é algo normal, tanto na série, quanto na realidade, mas no decorrer da série há outras lutas e pontos bastantes importantes que envolvem negros em nossa sociedade.

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Em fevereiro, o primeiro trailer de “Dear White People” recebeu enxurradas de críticas, pois alguns utilizadores acusaram a Netflix  de “racismo” e de serem “antibrancos”, com até alguns cancelamentos de subinscrição do serviço de streaming( fluxo de informações multimídia).

Blackface é uma prática que no século 19, brancos pintavam a cara de preto ou marrom para se mascararem de negros, que eram vistos como segunda categoria.

No início do século 20, o blackface se ramificou dos minstrel shows e  se tornou um gênero de teatro próprio. Até que com a luta dos direitos civis americano, o Blackface teve seu fim em 1960.

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Em “Dear Withe people” estudantes da universidade resolvem fazer uma festa de Halloween com o famoso blackface, onde alunos se caracterizam de pessoas negras. Até que um dos alunos negros, que até aquele momento era apartidário, recebe um convite  e resolve notificar os ativistas negros sobre o evento que está prestes acontecer.

Até que Samantha White( Logan Browning) radialista do programa “Dear White People“, na universidade, fala sobre o evento e ele tenta ser cancelado pelos organizadores, mas Samantha desenvolve uma estratégia, e reenvia o informativo para todos confirmando o evento, até que a festa acontece e o grupo ativista aparece para acabar com a festinha.

A princípio “Dear Withe People” aparenta ser uma trama um pouco pesada, pois ninguém que ter a sensação de que é racista, mas a série só tenta mostrar um outro lado que muitos negam existir.

Acho bem importante uma obra que desenvolve um senso crítico como esse, pois muitas das vezes pessoas não conseguem entender por só ter um lado da visão. É como se tivesse só uma versão da história.

A série é recheada de senso de humor. Então, não se preocupe, você vai conseguir assistir sem querer cortar os pulsos. Mesmo abordando um assunto sério você consegue ri com as cenas, o que torna o enredo mais leve. Os episódios seguem a sequência de continuidade no próximo episódio, o que acaba envolvendo quem assiste, mas mesmo assim não cansa.

O que também é muito interessante é ver que cada personagem ganha voz de forma individual, tratando cada assunto de maneira especial. Em um dos episódios Lionel Higgins(Deron Hurton) descobre que é gay. Ele quase até participa de um ménage à trois em cenas um pouco atrapalhadas e bastante engraçadas.

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Mas falar sobre homossexualidade de homem negro, é um outro assunto que ainda assusta um pouco.

A sociedade moldada em seu preconceito ainda torce o nariz quando o assunto é negro gay, pois estereotipam o homem negro, como másculo, viril, machão. Um recente exemplo, foi em Moonlight. Temática bem trabalhada e que abordava o tema com delicadeza como a série que aborda com humor.

Lionel é apaixonado e sente uma forte atração por Troy Fairbanks( Brandon P. Bell) candidato a presidente do campus e filho do diretor. Na minha opinião o mais gato da série.

Acho que a ideia de curto período de tempo, nos prende a trama, cada episódio segue uma sequência de enredo não linear, pois em alguns momentos cenas do final se mostram no início e vice e versa.

Acredito que “Dear White People” é uma ótima série para reflexão, principalmente, no Brasil, onde o racismo é velado e vistos como vitimismo e mimi.

Justin Simien, autor e diretor de “Dear withe people” diz que se inspirou na sua experiência pessoal, de quando estudou na branca Chapman University.

“Por mais que adorasse acreditar que estamos numa era pós-racial – uma ideia que ganhou força depois da eleição de Barack Obama em 2008 –, não posso ignorar o facto de que ainda sou visto pelo mundo como “um homem negro” e em algumas partes do mundo “um homem negro gay”, disse o realizador, citado pelo The Telegraph.

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Assim, como Justin vivenciou na universidade essa experiência de ser um dos poucos negros no local. Eu e muitos outros negros vivenciam essa experiência constamente em toda nossa sociedade, principalmente na parte elitizada. Cansei de frequentar restaurantes, bares, boates da zona sul, Leblon e adjacências, onde eu era a única negra no local. Me relacionei com um cara negro por um tempo, onde nós éramos os únicos casais negros frequentando lugares no Leblon. Muitos olhavam tanto que chegávamos comentar sobre a situação e ri da quantidade de olhares, pois às vezes jornalistas e até  “celebridades” nos olhavam. Realmente, não sei o que pensavam, mas era bem curioso isso.

Acho que o fato de ser um casal negro  causava mais estranheza nas pessoas, pois a sociedade está acostumada a ver um negro bem sucedido com uma mulher branca ao lado, ou uma mulher negra com um branco e logo imaginam ser estrangeiro, pois no Brasil, homens negros preterem a mulher negra e homens brancos querem mulheres negras ( com licença da palavra) somente para “comer” as escondidas, mas raramente para apresentar para os pais.

Em “Dear Withe People”, a personagem Coco Conners ( Antoinette Robertson), sofre quando sai com as amigas brancas e sempre sobrava no grupo. Um dia ela voltou para o alojamento se perguntando o porquê.

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Por que? Porque a mulher negra ainda não é vista como uma mulher apresentável. É estereótipada como objeto sexual, e pior, é considerada a carne mais barata do mercado. Sei que essas informações descem como uma comida indigesta, mas infelizmente, essa é nossa realidade. Confesso, que gosto de falar de flores e belezas, mas quando se trata de igualdade racial, essa poesia é marginal.

O mundo realmente é branco. hahaha E será bem mais legal se ele ficar colorido um dia.

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Quando crianças, nós, mulheres negras não tínhamos referências de nenhuma princesa que se parecesse conosco, o mais próximo de negro era a Jasmine, que nem negra era e sim árabe, mais tarde apareceu a Pocahontas, que era indígena. Ambos personagens com cabelos lisos e traços finos, perfil tolerado no sistema onde o branco ainda hoje, é visto como padrão de beleza.

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Ah tenho visto na internet e ouvido durante muito tempo sobre racismo inverso, antibrancos, e o filme “Dear withe people”, de 2014, aborda esse assunto também. E agora temos a continuidade com a série. E continuo vendo muitos repetindo esse discurso clichê de que é mimi ou vitimismo do povo negro.

Eu terminei de assistir todos os episódios de “Dear withe People” e simplesmente adorei. Confesso que já estou ansiosa para as próximas temporadas. Hiper indico para quem tem a curiosidade. Tem esse nome “Cara gente branca”, não é para ofender ninguém não, e sim para chamar atenção para uma temática tão importante como a tratada na série.

Você deve ficar se perguntando como alguém é capaz de gostar de uma série que prega o racismo reverso.

Bem, só para esclarecer,  racismo reverso não existe.

Sabe por que? Porque os negros não possuem poder institucional para serem racistas.

O sistema opressor é branco e o oprimido negro. O branco não sofreu e nem sofre com as consequências de um sistema escravocrata. O branco não é abordado pela polícia e visto como suspeito pelo simples fato de ser branco. O branco não sofre com falta de acesso igualitário à educação. A maioria dos presos, no Brasil são negros. A maioria das pessoas com menores salários, não sao brancas. A maioria das oportunidades na tv, nas passarelas, nas revistas de moda, nos cargos de chefia são brancas.

Falando assim parece estranho não é?! mas é real.

Se isso é normal para você, você precisa rever seus conceitos e estudar um pouco mais de história.

Ah mas Obama é negro e era presidente, tinha o poder, Joaquim Barbosa é negro e é juiz, Oprah Winfrey é uma das  jornalistas mais aclamadas nos EUA, Gloria Maria é negra e uma grande jornalista da globo. Quem quer consegue. Não é bem assim não.

É, gente! Quantos Séculos não tivemos que esperar para ver o primeiro presidente negro das Americas? Quantos Joaquins Barbosa conhecemos? Quantas Oprahs? Quantas Glorias Marias vemos na tv?!

Para começar, nos Estados Unidos houve políticas de reparo social para igualar a sociedade negra à sociedade branca. Ou seja, houve uma tentativa de equidade e funcionou. Isso começou a acontecer após as lutas pelos direitos civis nos anos 50 e 60. Onde em 1965, o negro teve direito ao voto. E a luta continuou nos anos seguintes, com fim da segregação racial e uma sociedade mais justa para todos. Ainda hoje, há muito o que se mudar e melhorar nos Estados Unidos, pois ainda vemos a truculência da abordagem policial para com o negro.

Na série fica evidente o preconceito racial no tratamento policial, o que não muda muito com relação ao Brasil. Há um episódio em “Dear Withe People”, onde o personagem Reggie( Marque Richardson) se envolve em uma confusão na festa de um colega, na universidade. Os policiais são chamados pelo até então namorado de Samantha, o Gabe ( Jonh Patrick Amedori) e uma festa com centenas de estudantes, somente Reggie é abordado e constrangido e obrigado a mostrar a identificação para provar que é estudante, e que realmente  estuda no campus.

É… polícia é polícia em qualquer lugar!

mas ainda assim conseguimos ver uma grande diferença com relação ao Brasil, onde o racismo aqui, é velado e há uma maquiagem na desigualdade racial, que nos faz acreditar em uma falsa democracia racial. Aqui, a classe social tem cor, e  a mais pobre é preta.

No Brasil, muitas pessoas sao contra as Cotas Raciais, afirmando que os negros tem as mesmas capacidades que um branco. Sim, o negro tem a mesma capacidade intelectual que um branco, mas não as mesmas oportunidades. O negro está muito atrás do branco com relação a igualdade. E as Cotas Raciais servem para isso, para reparar um erro do passado que fez o branco disparar na frente com todos os seus privilégios.

Espero que com a série “Dear Withe people” você possa entender a luta negra por igualdade e respeitar e fazer a diferença.

Eu não podia deixar de destacar a tocante declaração de independência do Estados Unidos, escrita por Thomas Jefferson, e declamada por Reggie com uma outra poesia  em um dos episódios. O que parece descrever a realidade do negro no Brasil. E você o que achou ou está achando da série? Você acha importante discutir temas como esse?

“Consideramos estas verdades como auto-evidentess, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes são vida, liberdade e busca da felicidade.

We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness.”  -Thomas Jefferson

“Unless you loud and black and possess and opinion then all you get is a bullet.

A bullet that held me at bay, a bullet that can puncture my skin,

Take all my dreams away, a bullet that can silence.

The words that I speak to my mother just because I’m other,

a bullet..

held me captive.

Gum in my face, your hate missplaced.

White skin, light skin, but for me, not the right skin.

Judding me with no crime committed.

Reckless trigger finger itching to prove your worth by disproving mine.

My life in your hands, my life  on yor line.”

 

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6 Respostas para “Dear White People_Cara Gente Branca

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