Poema: Queremos viver

Oi, gente!

Recentemente fiz uma postagem falando sobre a extrema pobreza no Aterro Sanitário, em Jardim Gramacho   e abaixo tinha um poema com fatos reais, mas depois relendo a postagem, percebi  quão grande a postagem havia ficado.

Para reduzir a extensão da postagem, resolvi dividi-la em duas partes. Se você quiser ler a outra parte click aqui.

Fiz o poema Queremos viver com tamanha tristeza, mas em forma de desabafo e indignação com este sistema  desigual e discriminatório. É revoltante ver um país rico como o Brasil, tendo tantas disparidades em pleno século XXI.

O poema é um pouco forte, mas foi desenvolvido de acordo com relatos de moradores e também minhas observações no local. Destaca a falta de AMOR e expõe a lamentável realidade do antigo Aterro Sanitário, de Jardim Gramacho.

Queremos viver

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Foto reproduzida do Projeto Gramachinhos 

Há necessidade de rever valores e conceitos.
Sair do quadrado, abrir a mente, rasga o peito!
Continuar a estereotipar é absurdo, desrespeito.

Desrespeito por toda luta, por toda dor.
E o holocausto preto continua acontecer com fervor.

Alô, realidade?
Injeção de consciência,
Sai do coma, sociedade!

Há quem só quer estar onde há câmeras, luzes e público para aplaudir, aclamar.
Pop star!

Menos hipocrisia e mais empatia.

Amor perdido até o fim dos dias…

Nas linhas tortas deste poema tentaremos encontrar.

Poderia está escondido se afogando em uma garrafa ou até em um copo em um bar.

Mas não…
percorrer a estrada de um mundo cão.
Capitalismo assassino, mas todos seguimos. Estamos indo.

É preciso ir onde não há flash, não há glamour. O ciclo se repete- Djavu.

Chegar de ganhar com o sofrimento, são mais de 500anos de lágrimas, dores, tormento.

Preto não é só futebol e nem preta globeleza. Meu corpo já cansou de ficar exposto na mesa.

Preto também é intelecto, cultura, pensamento . Pensamento que sai da baixada, cruza a Brasil, atravessa a rua, desce o morro, ocupa diversos espaços.
É afrontamento.

Preto andando, preto correndo, preto nascendo, preto morrendo, preto apenas sobrevivendo. Preto por fora, preto por dentro, Preto.
Vida ao preto. Por quê estão prostituindo a miséria e de quebra estão vendendo a favela. Já virou novela. A morte de preto como entretenimento na tela, só mazela.

Abutres se nutrem.
Arma, fogo, na direção.
Preto quer vida, libertação.

Vá se fuder!
Chega de morte, queremos viver.
Temperatura alta, mosquitos em nuvens escuras, visão turva diante do forte sol que está a ferver.
Mas ainda dá pra enxergar o grande pássaro carniceiro de plumagem preta que espera no alto do poste o velho franzino ou a pequena criança de fome morrer.

Homens esqueléticos e mulheres com seus peitos secos, já murchos.
Buscam, reviram, procuram..
Pois todinho vencido também enche o bucho.
Achados em meios as latas, garrafas, restos, insetos e plásticos. Comer é um luxo.

Fome matando some.
Lixo,
caminhão.
Sem habilitação.
Dirigi a vida que anda na contra mão.

A dor deixa marcas, cicatrizes, buracos. Em meio a poeira, pedras, chorumes, Ainda há sorrisos. Crianças magras jogam bola e brincam de taco.

Muitos não se desenvolvem.
Jazem subnutridas.
Quando sobrevivem no crime se envolvem.

Mortes infantis que ocorrem por omissão.

Omissão do Estado, omissão da nação.

Todos sabem que existe, mas ninguém move a mão.

Não é Etiópia é Jardim Gramacho- Lixão.

Enquanto os ” bonitos” vivem em suas bolhas, em seus mundos, em seus cantos. Egoístas – são incapazes de compartilhar até a compaixão.

A justiça é cega, desigualdade no Brasil é só um detalhe.
A mãe precoce deixa o bebê de 6meses enquanto rebola no baile. É, a vida preta não vale…

nada, pois só recebe a visita de baratas e ratos.

No chão sem asfalto entre barro e cascalhos os pés andam rachados sem sapatos.

Onde está o amor?

Que mundo feio. Alguém o encontrou?

Gritemos pelo amor:
Pelo amor, pelo amor de Deus.
Amor,
É surdo ou ausente!
Cadê?
Não está aqui. Ninguém trouxe, não dão.
Só destilam o ódio.
Este sobra e cresce mais rápido que grão.

Na lógica- só se pode dar o que se tem.

Preto, pobre. Pobre preto.
Em disparidade racial. É visto com desdém.

Meninas de 8 anos são abusadas por homens velhos, novos, até pela garotada e eles ainda justificam o porque da gozada: É aquele olhar saliente pedia pra ser chupada. Novinha gostosa saca muito bem de trepada. Olha o peitinho durinho, de shortinho- danada!

Não!

São só crianças.
Cadê a tal esperança que propagam todos os anos?

Pois muitas delas

Tem seus corpos tocados em troca de biscoito, ninho e pão.
Meninos de 12 anos são recrutados ao tráfico para dar o que comer para mãe e irmãos.

Famílias moram entre valas, telhas e madeiras armadas- são casas. Dentro não tem espaço pra nada.
Caminhão tóxico parou- pernas correm na direção como manada.

Moscas voando, chorume, mal cheiro.
Algumas poucas roupas furadas no varal de arame, sem bolso, nao importa. Não tem mesmo dinheiro.

O pai perde a cabeça porque roubou 200 metrôs de fio encapado.
Não é por ser nervoso.
E sim decapitado.

Fim das linhas chegou, sem mais palavras.
O amor não surgiu e nada mudou.

Poema por Alessandra Martins

 

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